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Como o sexo do doente pode modificar a associação entre inflamação e eventos vasculares em VIH tratado

Como o sexo do doente pode modificar a associação entre inflamação e eventos vasculares em VIH tratado

O Dr. Samuel R. Schnittman (University of California San Francisco) apresentou o seu trabalho na CROI 2021, no segundo dia do evento, abordando, na área das comorbilidades cardíacas, a maior necessidade de estudar as diferenças entre homens e mulheres, nos doentes em terapêutica antirretrovírica.

 O orador começou por lembrar que as pessoas com VIH em terapêutica antirretrovírica (TARV) têm um risco 50% maior de complicações vasculares. A inflamação persiste apesar da TARV e prediz estes eventos. No entanto, as vias biológicas específicas que estão por trás destes eventos permanecem por identificar. Adicionalmente, o género aparenta afetar a inflamação, e mulheres têm resposta imunitária mais robusta a infeções virais, sendo o estrogénio um modificador direto da transcrição do VIH. O conhecimento de diferenças entre sexos em VIH tratado é, no entanto, menor.

 

“Usámos uma coorte multicêntrica de larga escala para entender os preditores imunológicos de eventos vasculares e como o sexo biológico afeta a ativação imunológica e a sua relação com resultados clínicos”, afirmou o Dr. Samuel R. Schnittman. Um estudo de caso-coorte em adultos com HIV tratado foi desenhado. Adultos com supressão de VIH por TARV durante 1 ano ou mais foram incluídos (N=9430). Foi aleatoriamente selecionada uma sub-coorte de cerca de mil participantes que serviu como controle. Foram recolhidos todos os eventos de enfarte do miocárdio (EM) tipo 1 e 2, AVC isquémico e tromboembolismo venoso (TVE). Mortalidade por todas as causas foi avaliada na sub-coorte. Biomarcadores no plasma foram avaliados a 1 ano de supressão viral. Os participantes foram seguidos até ao tempo para o evento, morte, censura administrativa ou perda do acompanhamento.

 

Modelos multivariados proporcionais de Cox foram usados para analisar a relação entre biomarcadores e eventos. Vários biomarcadores foram associados com EM tipo 1, enquanto que virtualmente todos os biomarcadores foram associados com MI tipo 2. Mortalidade teve um padrão semelhante a EM tipo 2. Nenhum dos biomarcadores foi associado com AVC isquémico, provavelmente devido a pouco poder estatístico. Apenas uma parte dos biomarcadores foi associada com TEV.

 

“Após estabelecer estes distintos padrões, estávamos interessados em avaliar até que ponto a ativação imunológica é afetada pelo sexo biológico”, prosseguiu o palestrante. Quase todos os biomarcadores eram mais elevados em mulheres comparado com homens. “Perguntámo-nos se estas diferenças poderiam ser devidas a hormonas sexuais”, afirmou, e usaram a mediana de idade da coorte (47 anos) para modelar a idade como indicador binário e avaliar o efeito da menopausa. Tanto homens como mulheres apresentavam níveis mais altos de biomarcadores após os 47 anos, consistente com o conhecimento de imunosenescência. Mas as mulheres apresentavam maiores aumentos relativos de biomarcadores após os 47 anos.

 

“Estávamos interessados em perceber como o sexo poderia modificar a associação entre ativação imune e incidência de eventos vasculares”, proferiu de seguida. Combinaram aqui EM tipo 2 e morte para aumentar o tamanho da amostra. Para cada biomarcador, a incidência destes eventos é maior em mulheres do que em homens. O mesmo foi observado para AVC isquémico. Ao contrário, para TEV houve um resultado oposto, com incidências maiores em homens.


O Dr. Samuel R. Schnittman salientou de seguida as limitações deste estudo, que considerou serem o tamanho da amostra (que poderá limitar a deteção de diferenças clinicamente significantes em biomarcadores ou interações), não haver dados sobre hormonas sexuais no plasma e terem poucos dados em pessoas transgénero ou em terapia hormonal sexual.

 

Quanto às conclusões deste estudo, estas foram várias:
1. Distintos biomarcadores predizem distintos eventos não-SIDA. O enfoque seguinte deverá ser identificar assinaturas inflamatórias específicas que causem distintas doenças.
2. Mulheres com VIH tratado têm maiores níveis de ativação imunológica. Algumas destas diferenças poderão ser causadas por hormonas sexuais.
3. Sexo modifica a associação entre eventos não-SIDA e inflamação. Isto indica que devemos aumentar a representação de mulheres em estudos observacionais e ensaios clínicos.

 

quarta-feira, 10 março 2021 17:50
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